sexta-feira, 22 de abril de 2016

O Império Cinematográfico da Hasbro



O Universo Cinematográfico da Hasbro, a fabricante de brinquedos, dona de marcas como G.I. Joe e Transformers, se ficar de acordo com o prometido, deverá ser vasto, impressionante e muito rentável. E para isso está montando uma equipe de escritores e roteiristas de respeito para juntar tudo em um universo compartilhado. 



A Marvel provou que um universo cinematográfico compartilhado pode ser rentável e vasto se bem planejado e concatenado, uma mina de ouro para produtos licenciados, quadrinhos, games e qualquer coisa relacionada com uma marca de sucesso. Star Wars, que desde de 1977 goza de respeito por ter praticamente reinventado as regras de tal jogo de licenciamento, agora sob a tutela da Disney, se abre para a diversificação e ir além do núcleo Skywalker, o que já começou com a animação Rebels e já tem em Rogue One, o primeiro spin off de cinema da franquia, o filme mais esperado de 2016 . A DC Comics vai começar algo semelhante com o Universo Hanna-Barbera, mas somente para os quadrinhos, agora em maio, nos EUA. Porque no cinema, a DC ainda não leu direito a cartilha. 

A Hasbro, a gigante fabricante de brinquedos e licenciada pra produzir as linhas principais de action figures e demais brinquedos das duas marcas da Disney, com certeza, não seria ingênua de não enxergar as possibilidades na estratégia de sua parceira. E a Hasbro tem balas pra essa guerra. Embora hoje sua linha mais rentável (linha própria, lembre-se) seja Transformers, a Hasbro é dona do G.I. Joe, considerado a primeira action figure, o primeiro boneco feito para meninos que não usaria o termo "doll" como ferramenta de marketing. Embora já existissem bonecos para meninos desde sempre (cavaleiros, soldadinhos de chumbo, o Forte Apache, etc), foi a Hasbro que cunhou o termo Action Figure em 1963, para o lançamento do G.I. Joe, The American Moveble Fighting Man, na Toy Fair de 1964. A Hasbro, então ainda somente Hasselfeld Brothers, já era uma grande fabricante de jogos de tabuleiro, dona do Monopoly (o nosso Banco Imobiliário), do Risk (o nosso War) e do Battleship ( nosso "Batalha Naval") entre outros, via o nicho do boneco para menino no rastro da Barbie da Mattel, que virara o padrão de boneca para menina. Vale lembrar que Battleship virou filme já na tentativa da Hasbro de transformar seus jogos em filmes e que ainda temos boatos de um filme de... Monopoly!

Mas quem cresceu nos Anos 80 lembra de outras coisas que a Hasbro lançou, mesmo que no Brasil só tenham chegado as animações e os quadrinhos. Entre elas estão M.A.S.K - Mobile Armored Strike Kommand, o desenho dos carros que se transformavam em veículos de combate futuristas que foi exibido pelo SBT e passava antes do desenho Pole Position; e Visionaries, Os Cavaleiros das Luz Mágica, o desenho dos cavaleiros de um mundo mágico que recebem poderes totêmicos através de cetros e armaduras, que foi exibido no Show da Xuxa, contemporâneo ao desenho do Comandos em Ação; Micronautas, a saga de um grupo rebelde que enfrenta a tirania do Barão Karza e ROM, o Cavaleiro do Espaço, o nobre herói do planeta Gálador que sacrificou sua humanidade para se tornar um ciborgue e enfrentar os malévolos espectros, ambos publicados em quadrinhos pela Marvel e no Brasil pela Editora Abril, nas revistas de linha da época, Micronautas na Heróis da TV e Rom na revista d'O Incrível Hulk. 

Agora a Hasbro “trancou” um time de peso em uma sala para planejar e criar um universo cinematográfico que contemple todas essas marcas e dê nova vida a elas para que possam ser tão rentáveis quando Transformers é. E juntas no mesmo universo. 

O primeiro nome é Michael Chabon, autor do romane The Amazing Adventures of Kavalier & Clay e com algum crédito por Homem-Aranha 2. Depois temos Brian K Vaughan, criador de Y: O Último Homem (uma das melhores coisas que já li) e Saga e showrunner de Under the Dome. E também temos Nicole Perlman, co-autora de Guardiões da Galáxia e da boa fase da Capitã Marvel.

Michael Chabon


Brian K. Vaughn
Nicole Perlman
E não são só apenas eles!!! Também temos no time criativo:
  • Lindsey Beer (Transformer 5)
  • Cheo Coker (showrunner de Luke Cage )
  • John Francis Daley e Jonathan Goldstein (Spider-Man: Homecoming)
  • Joe Robert Cole (People vs. OJ Simpson, Pantera Negra)
  • Jeff Pinkner (da adaptação de A Torre Negra)
  • Nicole Riegel (escritora por trás do script Dogfight de The Blacklist)
  • Geneva Robertson (do projeto do novo filme de Tomb Raider)
Akiva Goldsman
O escritor ganhador do Oscar por Uma Mente Brilhante, Akiva Goldsman, servirá de “supervisor” da sala de escritores e como produtor executivo para todos os filmes. Goldman vai ser para a Hasbro e Paramount o que Kevin Feige é para a Marvel. Para produzir os filmes, a Hasbro vai usar a sua marca de produção, a Allspark Pictures e o chairman e CEO da Hasbro, Brian Goldner e o produtor executivo e CCO Stephen Davis serão os produtores. O cabeça de narrativa da Hasbro, Josh Feldman, será co-produtor executivo. 

"Nós, em primeiro lugar, buscamos reunir uma lista de escritores que queríamos que estivessem conosco no negócio e poderiam ser o contadores de história que precisávamos", disse Stephen Davis. "Mas nós queremos ter certeza de que na sala temos diversas perspectivas, diversos backgrounds, e diversas experiências. "

"Empoderamento feminino é um tema central através de um várias dessas linhas e uma das razões que queríamos diversas vozes", disse ele.

Até o momento, os filmes de Transformers já arrecadaram mais de US $ 3,8 bilhões, além dos montantes trazidos pelos filmes do G.I. Joe.

As dúvidas e as possibilidades

Agora ficam as dúvidas, por exemplo, como juntar tudo isso num universo só? Confesso que o que a DC Comics vai fazer com a Hanna-Barbera jutando Johnny Quest, Space Ghost, Herculoids, Frankenstein Jr e outros numa saga espacial para salvar o universo me assusta um pouco. A solução do Scooby-Doo num apocalipse zumbi me pareceu mais legal. A receita de Star Wars já parece apetitosa só de ver os trailers. Marvel é até covardia comentar. A DC ainda tem muita lição de casa para fazer, já que seu universo de cinema não conversa com o da TV e podem criar o conceito das Terras paralelas. 

Transformers e G.I. Joe já são pão e manteiga desde os crossovers nos quadrinhos da Marvel nos Anos 80, tanto que em Transformers e em suas sequencias, os militares são presença constante e de destaque e, no primeiro filme, apresentados de forma magistral, como só o Michael Bay consegue e, por isso, sempre bem aceito pelas forças armadas dos EUA. Não seria difícil colocar as duas franquias no mesmo universo, há material suficiente para ótimos trabalhos, inclusive muita coisa recente da Devils Due e da IDW. Talvez se esbarre na reformulação do G.I. Joe anunciada pela Hasbro por conta de hoje pegar mal militares enfrentando terroristas mascarados, pois lembraria as vítimas do Estado Islâmico a falta de face de seus algozes. Então não sabemos como ficará a situação da organização COBRA.

M.A.S.K. já é outra franquia fácil de incluir, tanto por já ter tido um crossover do Especialista Matt Tracker, o líder dos mocinhos, com o G.I. Joe nos lançamentos da linha de brinquedos quando da série 25th Anniversary, já indicando que havia planos de juntar, pelo menos, G.I. Joe e MASK. E, claro, veículos comuns que na verdade se transformam em carros de combate que voam, se tornam lanchas, helicópteros e muito bem armados e controlados por máscaras high-tech e uniformes especiais casariam com as duas franquias anteriores. Inclusive até a tecnologia transformer pesquisada pelos humanos já seria uma boa desculpa para termos tais veículos. Até aí, tudo casadinho e bem arranjado, fácil de engolir e vender porrilhões de bonequinhos. Na linha original eram figuras de 2,5 polegadas, menores que os 3 ¾ de polegada do G.I. Joe de 82. E, claro, teve quadrinhos também.


Aí vem Micronautas. Eles tem esse nome porque são alienígenas de um sistema bem distante e são do tamanhos de nossos G.I. Joes em nosso planeta. São micros. Ok. Alienígenas só precisam cair na terra para envolver os humanos em sua guerra. Fácil juntar esse universo também, e com uma pitada de Terra de Gigantes essa saga meio inspirada em Star Wars pode render bem. Ah, e eles virem para a terra e nos envolver em sua guerra aconteceu nos quadrinhos, veja só que coisa inédita!!! Mas foram uma linha de brinquedos antes de termos os quadrinhos desenhados pelo Michael Golden. E tem história aí, rende uma matéria só deles. 


Rom, o Cavaleiro do Espaço, singra o espaço para exterminar os Espectros, uma espécie alienígena predatória e transmorfa, que se infiltra em planetas para conquista-los, exauri-los e destruí-los como qualquer alienígena gafanhoto gosta de fazer. Não deve ser tão complicado também. Quem abriga robôs alienígenas e microrebeldes, abriga uma conspiração galáctica fácil. 



Acho que a porca vai torcer o rabo com Visionaries, pois eles vem de um mundo mágico, místico, cheio dos feitiços e suas armas e habilidades se baseiam na luz mágica concedida a eles pelo mago Merklinn. Mesmo seus veículos aparentemente tecnológicos são movidos por essa magia. Mas a Marvel acertou a inserção do mundo divino do Thor e caminha para nos surpreender com Doutor Estranho em novembro. Então não é impossível. 
A linha de brinquedos tinha figuras maiores, de pouco mais de 4 polegadas.




Conversando com amigos colecionadores e nerds velhos como eu, para G.I. Joe, o brinquedo soldado está em baixa, como estava no final dos anos 60 por conta da Guerra do Vietnã, e se não foram fracassos de bilheteria, os filmes também não conseguiram repetir as bilheterias expressivas de Transformers, mesmo com os roteiros bisonhos das 3 sequencias. Crianças ainda se maravilham mais com o Optimus Prime montado num tiranossauro cibernético que cospe fogo do que em encontrar sentido para ele estar lá. Ok. Confesso. É massa se você esquecer de prestar atenção. Mas a gente chega numa idade que não consegue evitar de prestar atenção. 

A estratégia pra os brinquedos nos anos 80 era sempre criar uma linha de brinquedos e um desenho pra contar a história. Funcionou com M.A.S.K., Transformers, Visionaries, G.I. Joe (embora pra esse o desenho tenha vindo depois do brinquedo, mas o quadrinho veio junto) . A Mattel também fez isso: He-Man foi idealizado para sair com o desenho Masters Of The Universe, assim como Thundercats gerou uma linha da LJN. Jace foi um desenho criticado, mas a linha de carrinhos da MAttel era linda, mas nunca chegou ao Brasil. Essa estratégia funcionava, e ainda hoje funciona com Star Wars e Marvel. 






Para G.I. Joe, talvez ter uma série adulta de TV na linha do que a Netflix faz, ou com uma pegada a la Strike Back ou The Unit, e um desenho animado infantil, como o Transformers Rescue Bots, poderia dar uma renovada. Talvez a linha revisite o Action Team, o que era o G.I. Joe de 12 polegadas que veio a ser o nosso Falcon, quando o brinquedo soldado perdeu o fôlego nos fins da década de 60. Um bom videogame talvez ajudasse. Mas o que a Hasbro vai fazer para renovar a marca é um mistério para os fãs e colecionadores que talvez só seja desvendado depois da JoeCon nos EUA em junho, quando provavelmente a Hasbro deve anunciar algo para acalmar os fãs depois de decretado o fim da parceria com a Fun Publications, que administras os fã clubes de G.I. Joe e Tranformers




Transformes já está garantido e é a linha própria que mais vende. E justamente por isso já tem 3 filmes programados, incluindo um solo do Bumbblebee

Mas as marcas antigas, há muito sem base com as novas gerações, vão precisar de muito para concorrer com o que já existe nos corações cheios de Homens-Aranha, Homens de Ferro, Capitães América e Hulks, Reys e Kilo Rens, Vaders e Storm Troopers. Mas ainda acho que podem penar menos que o Superman e o Batman. A geração videogame precisa de algo muito bom para ser mesmo fisgada pelo mercado. A Hasbro sempre soube fazer isso, esperamos que ainda saiba. 

Vamos ver o que o futuro reserva para os corações das crianças dos anos 80.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Lúcifer



 Sempre um coadjuvante da história e da religião, o Diabo sempre foi um artifício literário e um vilão a ser derrotado, suprema antítese de tudo que é bom. O pai da mentira, o senhor da discórdia. Não preciso contar a origem de Satanás, todo mundo deve saber de onde vem O Adversário. Mas vamos contar quem é este Lúcifer da Vertigo, a linha adulta da DC Comics, vindo diretamente das páginas de Sandman, de Neil Gaiman.

Lúcifer e Morpheus
Ele é apresentado inicialmente no primeiro arco de histórias, quando Morpheus vai a Inferno para recuperar um de seus objetos de poder que foi tomado por um demônio em uma barganha com um mortal. O caso todo é conduzido de maneira magnifica e se percebe um estado quase diplomático, embora cheio de animosidade, entre o Senhor dos Sonhos e o Senhor do Inferno. Daí por diante, Lúcifer é um coadjuvante da história quando Oneiros, muito mais tarde, volta ao Inferno para buscar um antigo amor que ele mesmo condenou à danação. Chegando pronto para uma batalha com Lúcifer, este o surpreende lhe entregando as chaves do Inferno e lhe pedindo para que corte suas asas. E tudo isso porque se cansou de ser o Lorde dos Condenados, o Senhor das Moscas. Milênios da mesmice e do enfado de punir os culpados de gerenciar as bólgias dos condenados. 

Então, Lúcifer se vai e deixa o abacaxi gigante que o Inferno é nas mãos de Morpheus que, agora, precisa decidir o que fazer com ele. Mas isso é outra história. Daí surgiu a Graphic Novel Morte - A Festa, onde as irmãs de Morpheus tem que lidar com as almas que não tem para onde ir enquanto o Inferno está fechado. E segue a história das deidades e outros demônios cortejando Morpheus para se apoderar do Inferno, um lugar que representa poder, um lugar que garante ao seu rei status e poder. Até mesmo Odin e seus filhos comparecem ao evento onde Morpheus decidirá a quem entregará a chave. No fim, dois anjos enviados por Deus acabam assumindo a tarefa, meio a contragosto, já que para os anjos o inferno é um lugar abjeto. 

Mas o que aconteceu a Lúcifer? Para onde foi Satanás? Passou um tempo editorial antes de ganhar uma série própria e sabermos o seu destino: Lúcifer vai para Los Angeles e abre uma distinta casa noturna, a Lux, onde como dono e pianista, passa dias tocando sucessos do jazz e outras coisas que ele aprendeu a gostar com os humanos. Posteriormente, em sua série de quadrinhos própria, o Diabo surge como alguém que se procura para fazer serviços sujos, tanto no mundo físico quanto no mundo espiritual,  que outros não gostariam de fazer. E o primeiro trabalho foi o próprio Pai que solicitou que se torna uma bela jornada xamãnica.

Vários dos paralelos da série de quadrinhos e a série televisiva acabam por aí. Outros, se mantém fortemente. 

Como um poderoso ser sobrenatural imortal e milenar, nos quadrinhos ele nutre desprezo pela humanidade, por suas mazelas e o desperdício que ele enxerga nessa parte da obra do Pai. De certa forma, ao acompanhar a maneira como o personagem enxerga a humanidade, você até concorda com ele. Afinal, quando ele observa que os filhos de Adão não dão valor ao silêncio, como discordar? É um profundo conhecedor da capacidade humana de enganar, mentir e cobiçar, o que o ajuda a alcançar sua metas antevendo passos que os gananciosos dariam. Aquela máxima de que as vítimas de estelionato são, na verdade, vítimas se si mesmos e da vontade de se dar bem. Ele usa magia, antiga e nova, artifícios mágicos e o conhecimento de adquiriu em eras geológicas de misticismo em todas as suas formas, como um mago supremo que acumulou conhecimento infindável para compensar sua falta de onisciência. Sim, Satã não vê e nem sabe de tudo.

Na TV, Lúcifer Morningstar é vivido pelo ator galês Tom Ellis, dando um delicioso sotaque britânico a um personagem que você não consegue mais imaginar sem esse jeito esnobe de falar. Temos um Lúcifer charmoso, lascivo e bon vivant, que, ao contrário de sua versão dos quadrinhos e, talvez por um dos produtores da série ser o mesmo de Californication, adora sexo, bebidas, drogas e diversão ao extremo. Talvez isso seja um dos maiores atrativos da série para o grande público, já que o apelo policial da série é corriqueiro para aqueles que acompanham o gênero, existindo episódios nos quais já percebemos o desfecho do caso já no meio do episódio. Fica sempre a curiosidade sobre o que vai ser feito por Lúcifer e como se desenvolverá a dinâmica entre ele e a detetive Chloe Decker, vivida pela bela Lauren German.

Lúcifer e seu "olhar de penitência"
O Lúcifer da TV parece, por vezes, um estranho em nosso mundo, demorando para descobrir como certos mecanismos funcionam, ao contrário de sua versão impressa que espera sempre o pior dos mortais. Chega a, por vezes, beirar a ingenuidade, o que gera uma divertida dicotomia no Diabo. Satã vai fazer terapia (com a Dra. Linda, vivida por Rachel Harris) e começa a se descobrir e percebemos o que eu sempre disse sobre o Diabo: é um filho que tem sérios problemas com o Pai. Tem seus momentos hilários, cheios do egocentrismo, desdém e sua soberba. Sim, temos um Diabo que desconhece a modéstia ou a humildade e isso é ótimo. E tudo isso com um charme que beira o efeminado, lembrando muito um arremedo de Oscar Wide, como um tipo de charme dandi.

Dra. Linda, a psicóloga do Diabo
Mas há um quê ali que atende à questão da rebeldia de Samael, o protetor da luz, aquele que acendia sóis para Deus antes de se rebelar, eras geológicas atrás, como ele mesmo gosta de definir. Fica mais claro na série do que nos quadrinhos que Lúcifer deixa suas obrigações no inferno por reconhecer que sua queda, na verdade, atendia tão somente a mais um desígnio de Deus. Deixar o inferno é a rebeldia suprema por deixar um cargo no qual ainda executava a vontade de Deus. Em muitos casos, Lúcifer se refere ao seu período gerenciando o inferno como um funcionário público que abandonou a repartição e o carimbar monótono. Entendamos que tudo isso parecer ser o preço do livre arbítrio, já podemos perceber, aí, que Samael foi o primeiro anjo a sair do programa, a exercer sua própria vontade em vez de seguir a vontade de Deus e assim, mesmo que ele não reconheça, mas fica muito patente na série, se igualar aos humanos. De certa forma, o próprio Lúcifer entende que ele é melhor que os mortais pois o livre arbítrio foi algo que ele conquistou, lutou e perdeu muito para ter, enquanto nós nascemos livres e não damos valor a isso.

A face de Satã para os culpados e pecadores
Embora nossa sociedade ocidental tenha hoje muito do arquétipo miltoniano de Satanás, a visão Vertigo acaba por quebrar esse paradigma de personificação extrema do mal para o paradigma de um ser em crise e ressentido, que tem mais desdém do que ódio pela humanidade e que decidiu que não precisa tentar as almas para que se lancem ao inferno. Na verdade há casos de diálogos básicos de "o que eu faria com a sua alma?" e "nunca mais voltarei para um lugar onde esse mortais vão passar a eternidade em auto-punição e culpa", lembrando que os maiores responsáveis pelos próprios atos são os próprios humanos, sem necessidade de empurrões maiores. Dessa forma, quebramos um pouco o paradigma miltoniano do Diabo que deseja o fim da humanidade para um que resolveu deixar para lá somente para não fazer mais um trabalho sujo para Deus. Um Tinhoso que acaba entediado em nosso mundo e encontra diversão resolvendo crimes e, assim, fazendo o que quer fazer, se vê como um ser buscando justiça para os outros, buscando culpados e lhes dar a devida punição, em verdadeiros momentos de bancar Deus. Afinal, o que é mais dado ao pecado da soberba senão administrar a justiça e se sentir senhor da vida e da morte, do bem e do mal. Mais do que criador da mentira e da enganação, do embuste e do pecado, Lúcifer sempre será o criador do orgulho e da soberba e, embora na própria série ele negue, suplantar seu complexo de Deus.

Amenadiel
Mazikeen
Personagens que ficaram melhores na TV que nos quadrinhos temos o estranho casal Mazikeen, a demônio que por amor à Lúcifer deixou o inferno com ele jurando sua eterna fidelidade e o anjo Amenadiel. Maze é uma serviçal nos quadrinhos, viciada em tortura com facas e dificuldade de falar pois é desfigurada e usa uma máscara em estilo fantasma da ópera. Na série é vivida por Lesley-Ann Brandt, que você vai lembrar de Spartacus e The Librarians, que faz mais o papel de guardas costas e gerente da Lux, com direito a alguns momentos "ninja" e sua índole de se divertir com sexo. Amenadiel aparece no primeiro arco dos quadrinhos como o mensageiro de Deus para solicitar a Lúcifer cumprir aquela tarefa, um personagem serviçal, com desejo que matar Lúcifer, mas preso pela sua coleira divina de obediência. Na TV, vivido por D.B. Woodside, temos um anjo que tem a missão de levar Lúcifer de volta às suas obrigações no Inferno, com momentos ambíguos de desejo de violência contra Lúcifer e outros de recordação dos tempos antes da rebelião, como um relacionamento de irmãos, embora pareça ter um agenda própria para se livrar de suas obrigações de cobrir a ausência de um rei no inferno.
Mazikeen de Lesley-An Brandt
Amenadiel de D.B. Woodside



Lúcifer e Amenadiel - tretas de família

Detetive Chloe Decker ( Lauren German)
Trixie (Scarlett Estevez)
Mas a relação com a detetive Decker é o que mais afeta Lúcifer, já que ela é imune ao seu charme lascivo que afeta mulheres e homens e ao seu poder de induzir os filhos de Adão e as filhas de Eva a lhe contarem seus mais profundos desejos. Essa imunidade o fascina, o impele a buscar uma proximidade cada vez maior com a detetive e descobrir os motivos de isso acontecer, de saber poque ela é diferente e, dessa forma, descobrir o que mudou dentro de si mesmo. De certa forma, representa a vontade humana de entender e buscar o desconhecido, a curiosidade, outra característica emblemática do livre arbítrio. As participações da filha da detetive, a pequena Trixie,  são uma diversão à parte, principalmente quando ela recita coisas que Lúcifer lhe disse (para terror da mãe) ou quando dá "lições" nos pais. Se você observar com outros olhos e fizer algumas análises, a criança com sua inocência quase nos fornece um ponto de referência ao conhecimento ou desconhecimento de Lúcifer do nosso mundo e mesmo do nosso desconhecimento sobre ele, já que ela não tem uma percepção de Lúcifer como alguém mal, mas um adulto diferente que faz mágica.


Infelizmente, não sabemos se a série terá uma segunda temporada depois de seus 13 primeiros episódios para saber se a série acabará bebendo mais em sua origem impressa e Lúcifer viverá aventuras mais sobrenaturais, jornadas xamãnicas, lutas entre o céu e o inferno e um vislumbre da enorme capacidade de manipulação, mentira, coação e indução, como só o Diabo seria capaz de fazer. Talvez a TV não esteja preparada para essa faceta do Diabo e a decisão de tornar tudo mais mundano e secular, simples e mais fácil de digerir se acertada para garantir a audiência. De qualquer forma, vale conferir e comparar, caso você tenha acesso aos quadrinhos. A Panin lançou um encadernado recentemente e espero que lance o restante. A DC relançou um nova série em dezembro, justamente para aproveitar o lançamento da série de TV. Existem várias edições de partes dos arcos de Lúcifer no Brasil, vale a pena procurar em sebos para saber mais e, claro, você sempre pode violar as regras e baixar da internet.




segunda-feira, 29 de junho de 2015

Divertidamente divertido


Muita gente na mídia estava decretando o fim da criatividade da Pixar, depois de não termos um filme deles no ano passado, depois de adiarem O Bom Dinossauro e anunciarem mais uma continuação de Toy Story. Muita gente estava dizendo que a Pixar poderia acabar e que as ideias esgotaram e teríamos somente continuações para manter o fluxo de caixa e deixar de arriscar no novo para manter-se no garantido.

Podemos dizer que em relação à Pixar, a única coisa garantida é ir ao cinema e se emocionar, não importa muito sua idade. 

Com Divertida Mente a Pixar calou aqueles que diziam que não havia mais criatividade ali. 

O estúdio que começou como parte da ILM da Lucas Film, passou pelas mãos de Steve Jobs para vender plataformas de trabalho para tratamento de imagens e modelagem e que se tornou sinônimo de qualidade de animação nos surpreendeu quando nos mostrou como seria se brinquedos tivessem sentimentos. Depois, como seria de monstros, carros, heróis,  insetos, robôs, ratos tivessem sentimentos. Agora ficamos surpresos quando vemos que sentimentos podem ter sentimentos. 

A história é uma metáfora do amadurecimento de Reily, uma tipica menina de 11 anos nascida em Minnesota que tem que mudar para São Francisco. 

Nisso, somos apresentados desde o nascimento dela às suas emoções: a Alegria, a Raiva, o Medo, a Tristeza e a Nojinho.

Partindo da premissa do primal, que fazemos e somos motivados para obter prazer ou evitar a dor, esses cinco sentimentos podem expressar tudo. 

O filme demonstra o bruco amadurecimento de Reily pelo processo de amadurecimento dos seus próprios sentimentos, sendo que de cara, você percebe que quem tem mais para aprender, talvez, seja aquela que acha que tem mais a ensinar. E tudo corre por um processo de ruptura. Há quem diga que o amadurecimento vem sempre com processos de ruptura e de questionamento moral, embora em muitos casos seja um processo longo, que passa pela propriocepção e aceitação do eu. 

Há críticas pelo fato de ser uma menina estadunidense e que isso não representaria muito, não se encaixaria na realidade do Brasil, por exemplo, mas não creio que isso seja válido. Fora os "regionalismos" os processos são semelhantes e a identificação com as situações são simples e coerentes. 

Temos a questão dos amigos que deixamos para trás. As coisas que amamos. Os lugares que conhecemos. E conhecer e abraçar o novo, estranhar o novo mundo e não saber seu lugar nesses novos contextos. Como se a alegria desaparecesse e tudo fosse medo, desagrado e raiva. Nem tempo para entristecer existe. Custamos, às vezes, a nos adaptar. E procuramos culpados e tentamos voltar para o que conhecemos, buscando situações familiares e próximas para obter ou voltar para a nossa zona de conforto. 

Visualmente o filme é soberbo. Colorido e desenhado para atender um universo inexistente de organização. Para tanto, os produtores buscaram inspiração na industria alimentícia. Por isso o armazenamento de memórias é literalmente parecido com enormes gôndolas e os tubos nos lembram das enormes esteiras de produtos que vemos em programas sobre fábricas. As memórias seguindo em esteiras me lembraram o documentário sobre o envazamento de Coca-Cola. Quando pesquisei sobre o filme descobri que era verdade, 

As memórias, cada uma com sua cor, lembram as balas de goma. Ou bolinhas de gude. 

A Alegria foi um pequeno desafio para Pixar: seus algoritmos para animação foram criados para desenvolver várias sensações de realidade com  luz e sombra, mas a Alegria é uma fonte de luz e, dessa forma, não tem sombra. Foi necessário reescrever o algoritmo para ela. 

A escolha das cores é condizente com os sentimentos de ficar vermelho de raiva, azul de tristeza, verde de asia, roxo de medo, brilhante como um sol de alegria.

E a maneira como várias coisas são demonstradas é maravilhosa, como o enorme abismo onde vão as memórias, o esquecimento e, mais que isso, a forma como é feita a triagem das memórias que serão descartadas. A piada sobre a mistura de fatos e opiniões da Reily é magnifica. E momentos de realização dos animadores com suas ferramentas, como o caso do pensamento abstrato, te fazem rir por imaginar tudo se tornando cúbico ou geométrico, como uma verdadeira obra de arte abstrata. Até mesmo a sala de comando é uma referência aos estilos dos anos 50 e 60 do sci-fi, lembrando os consoles de séries como Perdidos no Espaço e Viagem ao Fundo do Mar, ao mesmo tempos que você imaginar os Jetsons ou alguma outra obra da Hanna-Barbera homenageada no design.

As piadas sutis vão falar mais aos adultos dos às crianças mas, ainda sim, seus filhos, seus sobrinhos, vão amar o filme que, na verdade, é uma grande aula de psicanálise colorida, divertida e com momentos de emoção que vão te fazer lacrimejar (os mais fortes) e até mesmo chorar (seus manteigas derretidas!). 

Mais detalhamentos e vou começar a spoilar. Logo, vá ver o filme e tire suas próprias conclusões. Preste atenção nos detalhes e, no fim do filme, veja as animações dos sentimentos de vários personagens do filme. Destaque para a professora e o gato, 






sexta-feira, 26 de junho de 2015

Jurassic Zoo..ado


Como falar de um filme que virou sucesso de bilheteria, desbancou Vingadores do topo do record de abertura de fim de semana e de arrecadação nos primeiros nove dias?

Falar que deve sem um filme ótimo e tal.

Só que não é tudo isso.

O filme é, em si, mediano, não é um filme ruim. Tem um focos ótimos e umas tiradas pra se pensar e, por outro lado, tem umas marretadas de roteiro e detalhes de continuidade e história que te fazem pensar no motivo pelo qual você foi ao cinema. Bom... você vai ao cinema assistir Jurassic Word por 1- memória afetiva, você viu o primeiro no cinema ou TV ou no videocassete ou no DVD ou no Blu Ray e 2 - amou ou ama dinossauros ou 3 - é uma criança e crianças amam dinossauros.

A premissa do super zoológico que dá errado é quase a mesma do primeiro filme, só que dessa vez o parque está funcionando e com mais de vinte mil pessoas lá a zica pode ser muito maior.

Podemos colocar que o filme é uma enorme crítica metaforizada no diálogo do Pi com a dona ruiva executiva poderosa do salto de adamantiun (DREPSA):

- Estão felizes? As pessoas, os animais? - Pergunta o Pi.
- As pessoas, com certeza... quanto aos animais.. acho que não temos um método para aferir a felicidade deles... - responde a DREPSA

Mas como o Pi sabe tudo de bicho já fala que tem que olhar nos olhos pra saber. Certeza que ele tava lembrando do Charlie Parker.

Passando pelo parque vemos as muitas críticas ao sistema de zoo e shows com animais. Não sou biólogo e muito menos bichólogo. Gosto de ir ao zoológico mas ao mesmo tempo aquele monte de bicho enjaulado me incomoda. Eu não gosto nem mesmo da ideia de canários ou outro tipo de ave em gaiolas para ouvir seu canto. Mas vemos os pequenos triceratopes servindo de montaria para a criançada, como se fosse passeio de pônei, com sela e tudo. Levando em conta o tamanho de um triceratopes, estamos falando de bebês triceratopes. Bebês animais sendo usados para a diversão humana.

Lá na Argentina, no zoo de Buenos Aires, eles tem focas. Ou leões marinhos, sei lá. E lá você pode comprar a embalagem de sardinhas para jogar pros bichos enquanto eles ficam fazendo momices para ganhar o peixe deles. Aquelas focas passam o dia inteiro sendo alimentadas pela criançada com esses peixes. Tem algo semelhante, com as meninas alimentando o mini-dino com alguma coisa só pra ver a mão melecada de baba de dino.

O passeio entre os dinossauros no melhor estilo Simba-Safári está lá. O espetáculo, sugerido mas não explicitamente exibido, do Tiranossauro Rex comendo a cabra está lá. O show aquático com as orcas... digo, com o dino anfíbio gigante, está lá, lembrando o quanto o ser humano gosta de ter e demonstrar o poder sobre a natureza, esquecendo que ele mesmo está á mercê dela. Sempre, claro, lembrando no filme que animais criados em laboratório com o fim do entretenimento não tem direitos que outros animais tem, como diversos diálogos estão lá para reafirmar isso.

Até o Rei do Crime está lá para querer usar os velociraptors como armas, como já tentaram usar golfinhos e cachorros no passado.

Tudo em nome do lucro e da satisfação dos acionistas, é claro. Apesar do Pi ser o dono e ter uma ideia e um ideal, a administração e a pressão para que o dinheiro flua cai na mão da dona ruiva quase sem coração. Você percebe que é fácil ser idealista quando você passa da fase de se preocupar com dinheiro e contrata e paga outra pessoa para fazer isso, enquanto você pode se preocupar em aprender coisas divertidas, como pilotar helicópteros. Ou cair com eles. :P

Por isso temos o motivo do caos no parque: o dino criado em tubo de ensaio para ser maior, melhor e mais malvado, para atrair multidões sob o patrocínio e, para deixar mais emocionante, com criação em isolamento para deixá-lo ainda mais anti-social e propenso à violência, como ocorre com a maior parte dos seres humanos que sofrem bulling demasiado. Ah, esqueci: grande parte dos seres humanos não precisa passar pela experiência do bulling pra ser violento.

O grande charme do trailer e que atraiu tanta gente pode ser o Senhor das Estrelas correndo de moto com os velociraptors. Meu... véi... até eu quero um velocirapor!!!! E com a positiva premissa de que ele não os "adestrou" como se faz em um circo: ele se integrou aos hábitos dos animais para ser o alfa, o líder, fazer parte do bando e não ser um humano dominante, um domador. Fez como um cara fez com leões. Como vi uma mulher fazer com guepardos. Se integram ao grupo.

Lembrando que a cena virou meme e cuidadores de zoos do mundo todo imitaram e publicaram as fotos. Com esquilos. Com suricatas. Com guaxinins. E com um sem número de animais. A montagem dele separando o Batman Affleck do Superman Cavil tá hilária...

Mas tem as bobagens gigantes do filme.

A bolha de lexan autolimpante... Como? Como, meu santo Isaac Asimov do céu, uma bola de acrílico gigante fica rodando no meio do mato e não se suja? Nem arranha!!! Com aquele monte dinossauro no pasto e não tem um monte de estrume sequer!!! E a bolha de prásticu não se suja!!!

A tal da DREPSA corre na selva, de salto, e não cai. O salto não quebra. Foge do Tiranossauro, de salto, e não cai. E corre rápido a galega! A mulé corre no meio da selva e não se suja! Não transpira!!


Mas pra mim, uma das mancadas foi o Star Lord usar uma carabina Marlin Modelo 1895 SBL em calibre 45-70 Goverment com munição semi-encamisada ponta oca. Hollow Point. Véi... o couro que esses bichos tem tinha que usar munição perfurante. No mínimo. É arma para caçar urso, tudo bem. Mas eu achava que pra derrubar dinossauro ia precisar, no mínimo dos chamados "calibres africanos", daqueles que os selvagens usam pra derrubar os inocentes elefantes. E com projéteis encamisados.

Tem mais mancadas, mas daí vira spoiler. Mas eu descobri que se você quem um jipe, compre um Wrangler 92...

O filme também tem o drama familiar de fundo, que nem precisava estar lá, do meninos lidando com o possível divórcio dos pais, a tia alienada da família, a fase adolescente do meninão querendo aparecer para todas as meninas... "já esteve no parque antes?"

Mas o filme vale a pena ser visto. É divertido. É Sessão da Tarde. É cinema em casa. Você ri bastante e torce pelos mocinhos e sabe que o vilão vai se lascar. E pra ter casal feliz. E pior: vai assistir de novo.

E vai ter continuação.