quinta-feira, 23 de abril de 2015

Vingadores 2: A Era do Medo





Já que está todo mundo falando, vamos falar de Vingadores.

Já andamos fazendo um esquenta lá no Interligados, mas depois de ver o filme, impossível não comentar.

E como eu sempre prefiro os vilões, comecemos por ele: Ultron!

Ultron, o Robô Louco, foi criado por Roy Thomas e John Buscema em 1968 e sua primeira aparição em Avengers #54. A primeira versão de Ultron foi construída por Henry Pym, o Homem-Formiga original. O genial cientista fazia experiências com robôs superinteligentes, ainda quando não tínhamos exatamente o conceito de inteligência artificial,  quando sua criação adquiriu consciência e se rebelou. A mente de Ultron foi mudada a partir das ondas cerebrais de seu mestre Henry Pym. Depois de ser rebelar, o robô apagou sua própria origem da mente de seu criador e fez uma séries de upgrades em si mesmo e posteriormente tivemos várias versões de Ultron.

Pelo época de sua criação, não podemos deixar de fazer o paralelo com o HAL de 2001: Uma Odisseia no Espaço. 

Ultron sempre foi um dos grandes vilões da galeria dos Vingadores, voltando em versões cada vez mais inusitadas e com os upgrades tecnológicos mais surpreendentes. É como se cada novidade de sci-fi para produção de alguma tecnologia pudesse ser incorporada pela inteligência artificial de Ultron e sua necessidade de um corpo físico mais e mais evoluído. 

Ultron deseja evoluir, transcender seu criador e sua espécie. 

Nesse ponto, podemos falar do Ultron do cinema e as mudanças de sua origem para mudar o cenário do universo cinematográfico da Marvel.

Vingadores 2: Era de Ultron é a consequência de tudo que aconteceu nos filmes anteriores. A Batalha de Nova York mudou tudo. A Terra descobriu pela televisão que existe vida alienígena inteligente e que eles são como sempre foram mostrados no cinema de sci-fi: perigosos conquistadores. Como Tony Stark foi o único que passou pelo portal gerado pelo Tesseract e viu o poderio Chitauri, desenvolveu uma série de processos psicológicos de medo e necessidade de preparar o futuro. Homem de Ferro 3 mostra parte dessas consequências com a necessidade desenvolvida por ele de proteger a mulher que ama das reminiscências de sua vida pregressa. O programa da armadura para proteger Pepper Pots é uma prova disso. 

Temos um Tony Stark que ainda carrega a culpa das vidas que destruiu como fabricante e vendedor de armas e encara o sentimento de impotência diante de ameças cada vez maiores e mais perigosas. Isso o faz angariar para si a responsabilidade de proteger o mundo e desenvolver os meios para isso, como se isso fosse a maneira de sanar a dor que causou e redimir sua irresponsabilidade e ignorância em relação ao seu papel no mundo, como humano, empresário e herói.

Perceber que não poderia estar em todos os lugares ao mesmo tempo o leva a criar um pequeno exército autômato para ajudar os Vingadores em suas missões contra a HIDRA e demais ameaças. 

Nesse ponto, o centro de Loki tem papel fundamental e, a partir dele, Tony e Bruce Banner começam a desenvolver uma inteligência artificial que pudesse fazer o que eles não podem: estar em todos os lugares e colocar uma "armadura" em torno da Terra. 

Dessa forma, o medo do fracasso, o medo da perda, e o medo de repetir os erros do passado leva Tony Stark a, acidentalmente, criar Ultron. 

Ultron a partir desse momento se torna o mais próximo de um Cylon de Battlestar Galactica, a criatura que deseja seguir parte de seu programa original e determina que para haver paz deve haver evolução. E no melhor darwinismo, evoluir ou morrer, se adaptar ou deixar de merecer a existência e, assim, Ultron busca os meios de ser, para a raça humana, o que aquele grande meteoro foi para os dinossauros. 
O Ultron de Josh Whedon não é o mesmo robô louco megalomaníaco dos quadrinhos. Há momentos em que ele está confuso, divaga, e deixa escapar a necessidade de se provar melhor que seu criador, como um filho que não deseja estar à sombra do pai, lembrando a máxima de que os filhos devem matar os pais para serem autossuficientes e adentrarem a vida adulta. No nosso desenvolvimento isso é subjetivo e metafórico, representado com o momento em que laços são cortados, como quando se sai de casa para formar o próprio núcleo familiar ou para criar a própria história em carreira e vida. Ultron quer realizar isso de forma real, matando o criador e assumindo seu lugar, se mostrando a evolução lógica de uma espécie. 

Em suma, um cylon. Uma Skynet. A Matrix. 

E em seu desejo de superar o criador e evoluir, fornece os meios para a criação do Visão. 

Nos quadrinhos, o Visão é um sintosóide criado por Ultron para ser a forma de vida perfeita e enfrentar e destruir os Vingadores, mas ele se volta contra o seu criador ao tomar consciência real do certo e do erado, ao desenvolver uma moral humana. No filme ele é criado como um invólucro. Mais que isso é spoiler. Mas temos um Paul Bettany vermelho que ficou muito legal. 

E mantendo o mito do herói, todos na equipe acabam por ter que lidar com seus medos e sair melhores, preparados para enfrentar um inimigo que os sobrepujou e manipulou e, mais que isso, os afronta com suas falhas, seja explorando a culpa de uma assassina ou as responsabilidades do herdeiro de um trono cósmico ou a culpa de um monstro. 

Temos um gavião arqueiro que se torna uma peça de coesão, revelando uma face que só é vista no Gavião Arqueiro agente da S.H.I.E.L.D. do Universo Ultimate da Marvel. É inesperado, e de certa forma, deslocado, o momento da apresentação de um lado de Clint Barton que ninguém conhecia, como um Batman revelando para uma Liga da Justiça perplexa que é Bruce Wayne e que já sabia as identidades de cada ("Claro que sei quem são. Eu não trabalharia em equipe com quem não conheço"). Até o momento da "mensagem" do filme em que faz piada sobre ser o homem sem poderes com um arco é interessante, embora meio piegas. Mas heróis são chatinhos, mesmo. 

A fadiga na relação entre Steve Rogers, o Capitão América, e Tony Stark se desenvolve desde o começo do filme, plantando as óbvias sementes para Capitão América 3: Guerra Civil. Algumas são sutis, outras escancaradas, mas estão todas lá. A frase "O homem que queria uma família e tudo mais... eu acho que morreu há 75 anos" mostra um novo Steve Rogers, rompendo com seu passado e assumindo deveres de seu papel como soldado e protetor, meio, talvez, deixando as ilusões de lado para ver o mundo como ele é e não como deveria ser, numa alusão, quiçá, ao discurso de Nick Fury em Capitão América 2: Soldado Invernal. 

Temos vislumbres do passado da Viúva Negra, de como Natasha Romanoff passou pelo projeto Viúva Negra para se tornar A Viúva Negra, e seu jeito de buscar deixar um passado negro para trás, mas, como um Tony Stark, lembrando que o passado existe para assombrar. Sua relação com Bruce Banner, o Hulk, evoluí de forma nítida para o que ela mesma parece classificar como uma união de monstros. 


A participação dos gêmeos Maximoff é interessante e, verdade seja dita, Mercúrio tem uma participação mais apagada, quase como se estivesse ali apenas para fazer número e me parece pouco aproveitado. No decorrer do filme isso se torna obvio. Já a feiticeira parece longe de ser tão poderosa quanto nos quadrinhos, mas várias cenas sugerem sua relação futura com o Visão. A parte dos poderes mágicos ficou de fora da história, mas pode estar lá, escondida, como parte da razão de Thor ser vulneráveis às suas manipulações mentais. No entanto, isso é especulação do nerd old school e não está explícito no filme. 

As batalhas do filme são deliciosas. Talvez um pouco longas, mas isso é por conta do fan service de mostrar ação e encher os olhos com o poder de heróis e vilões, Há trechos que não precisariam estar lá, mas servem tanto para vender action figures quanto para maravilhar os que vão para o cinema só para comer pipoca e gritar para atrapalhar quem está do lado. 

As citações à Wakanda e a participação de Andy Serkys como Ulisses Klaw (com um delicioso sotaque africâner, se você assistir a versão legendada) estão lá e com o gancho para vindouro filme do Pantera Negra. Fora isso, pouco há de referência aos demais componentes do Universo Marvel. Provavelmente o filme evento, por si só, já deveria ser o suficiente. Mas os fãs querem mais. 

No Brasil temos somente a exibição de uma cena de pós-créditos (na verdade, entre créditos), sendo exagerada a notícia de uma segunda cena de pós-créditos. Provavelmente o mesmo caso do filme anterior: a cena da schwarma só foi exibida na versão estadunidense e depois distribuída nas mídias DVD e Blue Ray. Entendo que o estúdio anteceda a estréia do filme para o resto mundo como estratégia, mas reserve algo exclusivo para seu público nativo como uma compensação. 

O final do filme tem várias situações que geram ramificações para cada personagem e consequências a serem exploradas no futuro da Marvel no cinema. 

E a ponta do Stan Lee é ótima e logo no começo. É hilária. Excelsior!!!!




quarta-feira, 15 de abril de 2015

Rei do Crime



Vamos falar da mais nova série da Marvel e a primeira da parceria com o Netflix a ser lançada: rei do Crime.




É.. devia ser esse o nome, mas é a série do herói cego, o Demolidor.



O Demolidor foi criado por Stan Lee e Bill Everett em 1964 já em revista própria. O nome original, Daredevil, em tradução direta "diabo ousado", pode ser melhor adaptado como simplesmente "ousado" ou "destemido".



Matthew "Matt" Michael Murdock perdeu a visão aos 9 anos de idade ao salvar um cego de um atropelamento. No acidente, o caminhão envolvido transportava lixo tóxico que atingiu seus olhos, lhe tirando a visão e ampliando todos os seus sentidos e lhe dando um tipo de "sonar-radar" que lhe permite "ver" o mundo ao seu redor de maneira tridimensional, lhe dando uma percepção única do mundo.





Seu pai, Jack "Batalhador" Murdock, era um boxeador sem muita sorte e acabou morto por não entregar uma luta.

Depois de um tempo de treinamento com o velho mestre cego Stick, Matt acaba por controlar seus poderes e leva sua vida adiante, se forma em direito e monta uma firma de advocacia com seu melhor amigo, Foggy Nelson.

Mas com o tempo, Matt acaba por se tornar um combatente mascarado do crime, usando seus poderes para defender seu bairro, a Cozinha do Inferno, o Hell's Kitchen.

O principal inimigo do Demolidor é Wilson Fisk, o Rei do Crime. Embora tenha surgido na histórias do Homem-Aranha, foi com o Demolidor que o Rei do Crime se estabeleceu e foi com Frank Miller que o vilão se torna o grande opositor tanto do herói quanto do advogado.

Agora, depois de décadas de quadrinhos, algumas aparições em animações e um filme mediano para cinema o Homem sem Medo recebe uma série de TV pelo NEtflix.

E o resultado é impressionante.

A fidelidade à várias coisas dos quadrinhos é um banquete para os fãs antigos e novos e os easter eggs do universo Marvel de cinema e TV.

Mas mesmo assim o grande trunfo da série é o desenvolvimento dos personagens.

Todos os personagens tem sua linha de desenvolvimento, suas motivações e seus questionamentos.

Este Matt Murdock tem expressa sua indecisão, duas dúvidas sobe suas ações e como isso pode alterar sua própria trajetória e o que ele quer representar para sua cidade. Foggy Nelson não é apenas um apoio cômico, há uma razão para estar lá. Karen Page não é apenas a loira bonita que está lá para ser protegida.

Os flashbacks do treinamento de Matt com Stick trazem o saudosismo do roteiro de Frank Miller e o enfrentamento do Demolidor com seu primeiro ninja, que usa a toga vermelha de um mestre do Tentáculo e não de um genin comum só faz pensar no futuro da série em suas futuras possíveis temporadas.

E é saboroso procurar os detalhes nos encontros do Demolidor com Melvin Potter, o Gladiador. As serras circulares, os desenhos e projetos... e ficar pensando onde será aberta a loja de fantasias de Melvin.

Os diálogos e questionamentos morais da vida de Matt trazem toda a carga de várias histórias de Denny O'Neill e ainda mais dos recentes arcos do herói.

Mas é o Wilson Fisk de Vincent D'Onofrio que mais surpreende. O vilão complexo e desenvolvido, motivado e, acima de tudo, convencido de que o que está fazendo é o certo, leva a um patamar elevado o antagonismo com o herói, assumindo a face de nêmese completo, o outro lado da moeda, quando herói e vilão representam, realmente, os dois lados da mesma moeda. Impossivel, depois de ver a série, imaginar outro ator para interpretar Wilson Fisk. No momento de fúria em que o vilão confronta Ben Urich (outro personagem espetacularmente bem montado) você ainda consegue ver o lampejo de insanidade do Gomer Pyle de Nascido Para Matar.

A série constrói o vilão de maneira magistral e me faz lembrar do motivo pelo qual detestei o sexto filme da série Harry Potter, onde o vilão, complexo e bem estruturado nos livros, com todas as motivações explicadas, se torna apenas um menino revoltado do orfanato que foi rejeitado pelo pai. Aqui a relação é explorada de tal forma que não como não tem empatia pela história do vilão, inclusive pelo desenvolvimento do romance entre Wilson e Vanessa. .

Assim, dessa forma, de cena roubada e com certa justiça, podemos dizer que essa série poderia ser batizada de Hell's Kitchen... ou Kingpin!!


Título originalMarvel's Daredevil
Criado por (2015)
ComCharlie CoxRosario DawsonVincent D'Onofrio 
PaísEUA
GêneroDramaFantasiaAção
StatusEm produção
Duração52 minutos


domingo, 5 de abril de 2015

O Sétimo Filho

Ok. Fui ver o filme. Li alguma críticas antes e fiquei com a sensação de que era bem isso: uma adaptação de livre de fantasia bem elabora mas com roteiro falho e ruim e atuações aquém do elenco estelar conhecido.
E não tão ruim quanto eu pensava, embora esteja longe de ser bom.
Vamos começar pela história.
Numa Idade Média não definida, temos a figura das bruxas e feiticeiras e dos caça feitiços. Algumas são más e querem acabar com o mundo ou dominá-lo. Os caça feitiços, sempre o sétimo filho de um sétimo filho, estão lá para impedir.
Jeff Bridges é o último deles, fica meio óbvio, e ele tem que formar um aprendiz. Claro,
A Rainha Malkin de Julianne Moore é uma vilã feiticeira que se torna um dragão. Ah, sim, as feiticeiras e feiticeiros desse "mundo" são todos "animagos" que se transformam em alguma coisa.
O roteiro é fluido, segue, mas tem muitos lugares comuns, muita coisa óbvia, muito clichê.
Daqui para diante, spoiler de todo tipo, leia por sua conta e risco.
Repetindo o papel de Rooster Cogburn, mas em outro tempo e local, que já era reprise do papel de Wild Bill de 95. 

O menino desconhecido e sem graça que se torna o aprendiz de um Jeff Bridges que está cansativo, interpretando o mesmo papel de velho calejado rabugento de sempre, começa atirando facas e errando. Fica claro que, respeitando a jornada do herói, esse é o marco da transição dele: somente quando ele acertar o arremesso de faca ele está pronto, será o herói.
Temos a mocinha, a filha de feiticeira, tão sem graça que quando você descobre que o papel da mãe dela no filme é da Antji Traue, a Faora do Man of Steel, você entra no clássico caso de melhor pegar a mãe que a filha. A tal Vikander perde de longe para Traue.
Isso parece pouco em uma produção desse tamanho, mas se a mocinha é aguada demais... não vira.
Se eu fosse sétimo filho e tivesse uma sogra assim... 
... desculpa... mas a filha sem graça rodava rápido... Eita casal sem expressão!!!!
Aí temos Julianne Moore.
Ah, que mulher!!!
Ah, que papel sem graça!!!
A vilã, embora tenha motivação não consegue passar algo mais impactante para o expectador. Sem uma vilã que exprima realmente sua maldade, seja adquirida ou herdada, fica complicado. Mesmo com todas as explicações sobre o passado dela e de Gregory Bridges, não se convence que há a tensão necessária ali para justificar tudo, Para atores bons, podemos entender que o diretor que falhou ali, seja por falta de pulso ou por achar que os medalhões fariam a parte deles sem esforço.
Nas palavras de um amigo "Julianne Moore, também, não recusa papel... "
Quando descobrimos que o seu moço ainda é filho de feiticeira além de ser sétimo filho, temos o prometido, aquele tem o pé nos dois mundos,  o predestinado. Óbvio desde o começo do filme quando a mãe lhe entrega um amuleto idêntico ao que o Mestre dos Magos deu para Bob, o Bárbaro e que este deu para o gigante enfrentar o Vingador.
Claro que o amuleto se perde, o amuleto é achado. Claro que a feiticeira filha vai ter um estalo mágico ao tocar o prometido, um momento Brida para completar o filme.
A parte boa é que os combates são ótimos, a fotografia é boa e não economizaram filtros. Visualmente é ótimo de se ver.
Momento Photoshop de Julianne Moore
Só quando a Rainha Malkin está usando o poder do amuleto para seduzir Gregory temos aquele momento Photoshop de Julianne Moore, que deve estar previsto em contrato, onde todas as rugas somem e ela aparece perfeita e iluminada, num sonho sem rugas.
Acho Julianne Moore uma das mulheres mais belas do cinema de sua geração. Mas também acho essa cena desnecessária. Mas que vá. É o momento do feitiço parar no meio e Gregory acordar, como bêbado que acorda pra vida quando acha o artefato mágico do travesti que está beijando.
Eu juro que queria ter gostado mais.
Mas confesso que poderia ser pior.
Tem todos os elementos de fantasia lá. Deve ser por isso que sabemos o rumo das coisas.
Mas o que realmente incomoda é que, aparentemente, a região geográfica é enorme e eles tem apenas 5 dias para chegar no castelo da Rainha Malkin e dar jeito em tudo. De carroça e à pé, não dá. Os tempos e distâncias apresentados me incomodaram. E muito.
Dá pra assistir se você não for um crítico tão chato quanto eu.




domingo, 31 de agosto de 2014

Lucy





Já avisei antes, e aviso novamente: se não viu o filme e não quer spoilers, NÃO LEIA!!!!
Ah... e se você ainda não viu 2001... ah... faz favor... o filme é 1969 é clássico... não reclame de eu contar dele.

Agora que já fiz minha parte avisando...

Acabo de sair da sessão do novo filme do Luc Besson, Lucy, (França, 2014, 89 minutos) e duas coisas precisam ser ditas:

1 - É divertido. Foi feito pra isso. Esqueça a pseudo-ciência e os furos do roteiro e os questionamentos. Eu não vou falar dos defeitos do filme hoje. Apenas assista e se divirta que o filme funciona.
2 - Se você leu bastante e viu muitos filmes do gênero, vai perceber praticamente todas as referências que formam a colagem do filme. Não, a ideia não é original. Mas pelo resultado, quem liga?

Bom, pela sinopse primeiro:

"Quando a inocente jovem Lucy (Scarlett Johansson) aceita transportar drogas dentro do seu estômago, ela não conhece muito bem os riscos que corre. Por acaso, ela acaba absorvendo as drogas, e um efeito inesperado acontece: Lucy ganha poderes sobre-humanos, incluindo a telecinesia, a ausência de dor e a capacidade de adquirir conhecimento instantaneamente."

Explicando: a periguete Lucy, estadunidense residente em Taywan (nem pergunte pq ela está lá...), é meio que obrigada pelo peguete dela a levar uma valise para um bam bam bam de alguma empresa. Mas já no hall do hotel o cara é baleado e ela é lavada para o apartamento e obrigada a ser mula para transportar um droga sintética experimental. Aí já sabemos que o cara é um traficante. Dã. Quando está em trânsito para embarcar no avião, é espancada e a droga colocada cirurgicamente em seu corpo vasa e vai para a corrente sanguínea, o que leva a uma aceleração de seu metabolismo e da atividade cerebral. Paralelo a isso, a cereja do filme: Morgan Freeman com um doutor pesquisador/cientista fazendo uma apresentação científica sobre a capacidade cerebral humana, nosso uso de apenas 10% e o "e se..." pudêssemos usar 20%, 30%, 40% de nosso cérebro? 

Outra grande sacada:o filme todo vai apresentando cenas do tipo Vida Selvagem, para dar o quê de evolução, intercaladas com as cenas principais como apoio narrativo, como na sequencia em que Lucy é pega pelos capangas do Sr. Jang e acompanhada das cenas de um guepardo capturando um antílope. 

Do momento da assimilação da droga para diante, temos sequencias de ação somente para mostrar que o próximo estágio da evolução pode ser cruel com os humanos normais. 

Aí temos o paralelo que filmes e quadrinhos dos X-Men tanto mostram: o homo sapiens ameaçado pelo homo superior, da mesma forma que o homo sapiens ameaçou e eliminou os homo neanderthalensis. A evolução dando seu passo. O novo pronto pra substituir o velho. O acesso de Lucy à rede de telecom e o discurso de Freeman sobre o momento em que começamos a nos mover e comunicar dá um paralelo com o seriado, infelizmente cancelado, Intelligence, exibido no Canal AXN, do homem ligado à rede, o ser humano conectado à grade, a fusão de homem e máquina. 

Daí por diante vemos nossa Lucy passando pelos estágios de Jean Grey à Fênix, com traços de Mística e um pouco de Forge. E você começa a pensar em como será quando ela chegar aos 100% do uso do cérebro. E pensa no Dr. Manhattan. Será que ela vai ficar azul? A droga sintética usada é azul... 

Telecinese, telepatia, tecnopatia, controle de campo magnético e campos elétricos... se bem que ao lembramos que as quatro forças primordiais da natureza são gravidade, eletricidade e as duas nucleares, fraca e forte, controlar qualquer desses aspectos já gerou heróis e vilões fenomenais. Magneto controla apenas um aspecto da eletrodinâmica. Graviton controla toda a gravidade. Dr Manhattan controla todos. 
Magneto, o mestre do magnetismo
Graviton

Dr. Manhattan
Cinematograficamente, o filme bebe, nitidamente, de 2001: Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odissey, EUA, 968, 160 minutos). Mais no livro que no filme, mas bebe. A transcendência da consciência humana ao dar o próximo passo evolucionário é descrita no livro de forma tão clara e aproveitada em uma sequência de volta no tempo, passando eras, até Lucy se encontrar com sua xará, a Lucy, um dos fósseis hominídeos mais famosos por serem dos primeiros a confirmadamente andarem eretos. 
2001: O monólito e os primatas 

O encontro das duas Lucys é quase o encontro dos hominídeos de 2001 com o monólito negro, mas remonta também ao afresco da Capela Sistina de Michelangelo, da Criação de Adão,  de Deus e Adão a tocar as pontas dos dedos, momento de encontro do divino com o mundano, de criador e criatura, e ficamos imaginando se a nossa Lucy moderna ira intervir com a Lucy de 3 milhões de anos da mesma forma que o monólito negro interfere com os hominídeos de 2001. Mas a viagem prossegue (e ver Lucy voltando o tempo como quem usa um Kinect é até legal) e o tempo vai voltando, o relevo mudando, chegamos aos dinossauros e depois mais para trás, para fase antes do resfriamento da terra, antes da colisão de planetas que os cientistas dizem nos formou e criou nossa Lua. E vamos voltando até um momento que é um Big Bang ao inverso e um momento onde há somente matéria escura. E curiosamente tem a mesma aparência da matéria escura tratada no novo longa do Capitão Harlock. 

A Criação de Adão

Nesse momento já caminhamos para o final e já percebemos um paralelo com O Passageiro do Futuro (The Lawnmower Man, EUA, 1992, 107 minutos), outro filme que tenta passar a transcendência do humano, mas dessa vez para a máquina, não para um outro nível. No final, Lucy absorver todos os computadores e eletrônicos da sala da Universidade onde está tentando passar para os cientistas seu conhecimento adquirido e cria um novo e assombroso computador, mais uma vez preto e brilhante, formado de obeliscos piramidais, que deixam ainda mais claro seu parentesco com o monólito negro de 2001, e logo a seguir ela mesma se tornar matéria negra e brilhante, ela mesma se tornar o monólito e, para no final, estender um pendrive negro, pontilhado de estrelas, que conteria tudo o que ela aprendeu. Sim, temos um pen drive cósmico, com um fundo de aparência muito similar ao da entidade cósmica Eternidade, usada em várias histórias da Marvel. E assim, a metáfora do conhecimento repassado imita o repasse do conhecimento do monólito de 2001 para os primatas.

Eternidade

Infelizmente, o final meio que decepciona, pois Lucy desaparece e, quando o policial francês pergunta onde ela está, recebe uma mensagem de texto no celular: eu estou em todo lugar. 

Mais passageiro do futuro do que isso, só se todos os telefones do mundo tocassem ao mesmo tempo.

Mas ela transcende. No livro 2001: Uma Odisseia no Espaço, o momento de transcendência de David Bowman o eleva a uma consciência universal superior de tal forma que ele volta a terra e ao ser recebido, ainda criança cósmica, com mísseis nucleares que para ele nada representam. E o questionamento. 

"Ali, à sua frente, como um brinquedo reluzente ao quyal nenhuma Criança-Estrela podeira resistir, flutuava o planeta Terra, com todos os seus povos.
Ele havia voltado no tempo. Lá embaixo, naquele globo super-povoado, os alarmes estariam piscando nas telas de radar, os grande telescópios de rastreamento estariam vasculhando os céus - e a história como os homens a conheciam chegaria ao fim. 
Mil e quinhentos quilômetros abaixo, ele se deu conta de que uma carga de morte havia acordado e estava se movendo lentamente em sua órbita. As fracas energias que ela continha não eram ameaça possível para ele, mas ele preferia um céu mais limpo. Fez valer a sua vontade, e os megatons em órbita desabrocharam numa detonação silenciosa que trouxe uma aurora breve e falsa para metade do globo adormecido. 
Então esperou, organizando seus pensamentos e meditando sobre seus poderes ainda não testados. Pois, embora fosse senhor do mundo, ele ainda não sabia ao certo o que fazer em seguida.
Mas pensaria em algo."
- 2001: Uma odisseia no Espaço, Cap. 47 - Criança-Estrela, de Arthur C. Clarke.

O filme acaba sem sabermos o que Lucy fará, agora transcendida. Agora primeira de uma nova espécie, uma consciência que foi além da matéria. O David Bowman de Clarke voltou para ser senhor do mundo. Lucy, deixa um pen drive cósmico com conhecimento. 

Antes de jogar pedras em Clarke, lembre que ele foi uma das grandes mentes com século XX, mas ainda era uma mente do século XX. O homem que criou o conceito de órbita geoestacionária que possibilita a você, dono de um celular ou tablet, de um notebook ou desktop, falar com qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo, ainda via o mundo como os olhos do bipolarismo da Guerra Fria. Mas isso não desmerece sua obra. Mesmo assim, o homem era otimista. 


Lucy é ótimo para consumir uma quantidade enorme de pipoca e refrigerante enquanto você o assiste. Não é pra ser levado a sério. Mas que deixa alguma coisa pra se pensar, deixa. 

Para saber mais das 4 forças fundamentais de acordo com a física, clique aí... 

Para saber mais sobre a Lucy fóssil, clique aí...




domingo, 16 de fevereiro de 2014

G.I.Joe - 50 Anos


Quem tem mais ou menos a minha idade (sou da excelente safra de 1975), viveu uma época estranha chamada Anos 80. Foi uma época em que ainda sentíamos um pouco das loucuras dos anos 70 em vários movimentos culturais e uma época que começamos a absorver mais e mais da cultura dos EUA por conta de nosso alinhamento político, pois os governos militares ainda tinham tudo contra os comunistas da URSS.

Não é de estranhar que 1977 a Estrela S.A., nossa mais tradicional fabricante de brinquedos, lançasse o Falcon. 

O Falcon era um boneco diferente de tudo que já tínhamos visto aqui: era soldado e aventureiro; tinha uma mão de borracha que agarrava e segura seus acessórios e armas; tinha kits de aventuras muito legais; tinha um helicóptero, um jipe, um jipe com canhão, um tanque...; e tinha o Torak. Não me pergunte a ordem e a sequencia de lançamento dessas coisas no Brasil. Eu posso dizer tudo isso pra você hoje. Mas não é isso que importa. Importa o quanto eu, criança de 5, 6 anos, amei o primeiro Falcon que eu ganhei, o piloto sem barba, com macacão azul e o helicóptero amarelo. Depois o Torak. Depois o Falcon de macacão vermelho e escudo prata. Depois o de macacão branco com listras em arco-íris nos lados e máscara azul metálica.

Tinha o problema de que as mãos não duravam muito, os dedos caiam. Coisa de tentar sempre colocar o dedo do boneco no gatilho. As articulações se acabavam também. Mas ele tinha olhos de águia!!!! Eles viravam de um lado pro outro!!! Que mais eu poderia querer?

E com o tempo todos os meus Falcons e Torak precisaram ser levados para o Hospital das Bonecas na Rua da Penha. E minha dor: nunca ficavam prontos e minha mãe, depois de um tempo, nunca mais foi buscar. E eu os perdi. Devem ter sido desviados e perdidos, vendidos para outro moleque. Podem até estar na coleção de alguém. Vai saber. 

Aí, um dia, vi uma propaganda na televisão de uma coisa nova da Estrela. Uns soldadinhos que pareciam articulados e que lembravam muito o Falcon, inclusive nas caras barbadas no logo. Mas eu não saia de casa, era criança demais para sair sem minha mãe e meu pai. E até hoje eu lembro que era fim de mês, era sábado, estava chovendo e eu estava vendo aquele filme do Jerry Lewis que ele está de mágico na Guerra da Coréia e meu pai chegou da rua e nem tirou o chapéu e o casaco, foi no quarto e jogou pra mim na cama, sem papel de presente nem nada, o Arma Pesada dos Comandos em Ação, codinome Gladion, e a caixa com o Lança-Mísseis. Fiquei parado um tempo olhando, tentando assimilar o acontecido. Até que meu pai falou "Não gostou eu levo de volta." e imediatamente eu meti as unhas na embalagem e tirei o boneco. Evidentemente, foi um dia inesquecível. Eu só fui descobrir que o braço do boneco abria para os lados além do movimento de girar para frente e para trás à noite. Foi um susto, eu pensei que tinha quebrado.

O primeiro Comandos em Ação a
gente nunca esquece.
E eu nunca mais parei de comprar Comandos em Ação. 

Veio o desenho que passava na Globo, primeiro aos domingos, depois durante a semana no Show da Xuxa. Nunca gostei da Xuxa, mas dos desenhos que passavam lá eu gostava.

Interessante que um dia eu descobri a internet, lá por 1996, 97... e descobri que eu não era o único que curtia essas doideiras. Conheci outros colecionadores, hoje muitos deles amigos já de longa data, conheci vendedores e descobri que aqui no Brasil não tinham sido lançados nem metade, na verdade, nem um terço, dos itens que saíram lá fora, nos EUA. E que o nome era G.I. Joe, o mesmo que eles tinham no desenho e nos poucos quadrinhos que saíram por aqui.

Aí eu descobri que eu não precisava fazer custom de dreadnoks, que tinha pra vender. Mas não adiantou nada. Customizo até hoje.

Eu fui reunindo informação com os anos, fontes, e até planejei fazer um mestrado de marketing em G.I.Joe. Quando apresentei a ideia para um professor ele me disse que não era marketing, era sociologia, pois o produto não mudou a sociedade e sim sofreu modificações para atender ao mercado a que se destinava quando lançado e quando modificado. E depois, pensando nisso, é verdade. 

O G.I. Joe foi lançado na Toy Fair de 1964, e no mercado em dezembro do mesmo ano,depois de passar por um longo ano de 1963 sendo projetado para atender uma demanda latente de mercado: em 1959 a Mattel havia lançado a Barbie. A Barbie foi um sucesso imediato, apresentando para as meninas um modelo feminino a ser seguido, da mulher moderna. Você comprava a boneca básica e podia comprar os kits Barbie que quisesse para montar sua casa da Barbie e etc. Não mudou muito o modelo de venda da Barbie e seus acessórios para os dias de hoje.

Mas para os meninos não havia nada que se comparasse. Então o ex-sargento Don Levine, veterano da Coréia, então chefe de pesquisa e desenvolvimento da Hasbro (então somente Hasselfeld Brothers) pensou  numa maneira de homenagear os veteranos de guerra dos EUA e atender a essa demanda. E a solução foi criar um boneco soldado. E esse boneco teria um modelo de venda semelhante ao da Barbie: seriam vendidas figuras básicas e kits de acessórios, uniformes, armas e equipamentos vendidos separadamente, para que os meninos pudessem montar suas tropas e esquadrões como lhes fosse melhor. Aí tivemos o Action Soldier, o Action Sailor, o Action Marine e o Action Pilot. Um para cada braço armado dos EUA.

O grande problema era que a palavra "doll" em inglês é usada indiscriminadamente para bonecas e bonecos. E nos anos 60 jamais um menino macho iria brincar de boneca, mesmo que ela usasse farda e tivesse um fuzil e uma faca de trincheira. Então a Hasbro lançou o termo Action Figure, Figura de Ação. Meninas brincam com dolls; meninos brincam com Action Figures.

Essa foi só a primeira grande sacada. Porque a segunda foi criar as figuras totalmente articuladas, com base naquelas modelos articulados de madeira que artistas usam. As Barbies não tem articulações, os G.I. Joes tem.

A segunda grande sacada é o fato de que a Hasbro, mesmo tendo criado o modelo de articulações, não podia registrar o modelo de corpo humano. Então, o que poderia distinguir o AF para registro no mercado? Qual poderia ser a característica? O rosto dos Joes foi criado por um artista que estudou os traços de 20 heróis de guerra dos EUA, da Segunda Guerra e da Guerra da Coréia. No fim, muita gente acha parecido com John Kennedy, mas foi coincidência. O rosto em si também não podia ser registrado, então criou-se a cicatriz. Essa é, de fato e de lei, a marca registrada do G.I. Joe: a cicatriz no lado direito do rosto. 

Usando seus contatos com o US Army, Don Levine conseguiu com o Batalhão da Guarda Nacional em Queens os blue prints do equipamento padrão da infantaria e posteriormente das outras Forças de Defesa dos EUA. Com isso, puderam produzir de forma fiel em escala todas as armas e equipamentos que acompanhavam as figuras e seus kits. Podemos até dizer que o G.I. Joe teve apoio das Forças Armadas dos EUA desde o começo. E, claro. G.I. Joe vem do nome dado ao soldado estadunidense na Segunda Guerra: G.I. - General Issue, Item Geral, era que vinha escrito nas caixas de suprimentos destinadas a suprir a soldadesca; Joe é Zé. G.I.Joe seria o nosso Bucha de Canhão. 

Inicialmente vendido por US$ 4,00 a unidade, foi um sucesso imediato o nosso bucha de canhão. 

The Mercury Astronaut
Em seu auge, até mesmo um astronauta foi lançado com um modelo da capsula que orbitou a Terra, acompanhado de um disco de vinil com discurso do primeiro astronauta estadunidense que orbitou nosso planeta. Esse homem foi John Glenn.

As vendas foram ótimas até as coisas ficarem ruins no Vietnã. Depois da ofensiva do Tet em 68, a popularidade da guerra, que já era ruim, foi pro ralo. A imprensa mostrava mais e mais atrocidades cometidas por ambos os lados e a imagem do General Loan executando um prisioneiro vietcongue diante das câmeras não ajudaram. Os estadunidenses queriam seus filhos, maridos, irmãos e pais de volta pra casa e ninguém queria incentivar meninos a ir para o Exército. Era a época dos movimentos por direitos civis e tantos outras transformações sociais. As vendas caíram e caíram. E a Hasbro mudou o G.I. Joe de soldado para aventureiro. Surgiram os Action Teams. O Land Aventurer, o Air Adventurer, o Sea Adventurer e Adventurer Commander. Tivemos até uma linha "Espacial" para tentar alavancar as vendas, mas também não colou.

É, em parte, essa linha que a Estrela traria para o Brasil. A aventura no fundo mar, a caçada ao Yeti, o tesouro do faraó, aventura na selva. Foi o que garantiu uma sobrevida ao brinquedo, até vir a crise do petróleo, quando os xeques do petróleo resolveram fechar as torneiras e cobrar mais caro. Lembre que o plástico vem do petróleo. E o custo de produção aumentou e com isso o preço do brinquedo. As vendas voltaram a cair muito. E a Hasbro acabou por fazer o que ela evitou por anos: licenciou o brinquedo ao redor do mundo. Só tivemos Falcon no Brasil por culpa das crises interna dos EUA por conta das mudanças sociais e por causa da crise do petróleo dos anos 70. 

E a versão que chegou aqui nem foi a original da Hasbro, foi a licenciada na Europa pela Palitoy. 

A Hasbro mesmo parou de produzir por um tempo os G.I. Joes em sua escala original de 12" (12 poelgadas) ou 1/6 ou 1:6 como alguns preferem. Cerca de 30cm. As mudanças econômicas nos EUA obrigaram a empresa. Mas o maior sucesso deles nunca foi esquecido e com o tempo, foi pensado um sem número de planos para relançar.

Aí aconteceu Star Wars. 

A coleção inicial de Star Wars em 1977, da Kenner`s
Vamos deixar de lado o fato de o lançamento de Star Wars em 1977 ter colocado a ficção científica além dos filmes B dos anos 50 e 60 e que foi um estouro de bilheteria. Vamos pensar no que isso significou para o mercado. George Lucas, o diretor e escritor da brincadeira, foi o primeiro a manter consigo os direitos de merchandising da obra. A Fox podia ficar com os lucros da distribuição do filme. Mas nosso amigo George era dono da marca. E lançou de tudo que pode com a marca. Para a Fox o lucro era do filme. Era o que os executivos de estúdio enxergavam. Lucas viu tudo que podia gerar lucro por fora. Lançou lancheiras, material escolar, decoração de festa, camisetas, bonés e toda sorte de tranqueiras de Star Wars que faz um colecionador fã aficionado delirar. E lançou um linha de brinquedos que incluía AFs numa escala menor, a 1:18, ou 3" 3/4 ou apenas 10,5cm.

Evidentemente, pelo tamanho, eram mais baratas que figuras maiores. E venderam horrores. Encheram os bolsos do Lucas e os cofres da Kenner's, a empresa fabricante licenciada.

Com o sucesso da linha de brinquedos nessa escala, a Hasbro viu como trazer G.I. Joe de volta ao mercado. 

Havia ainda a questão que as casas encolheram. Ter todos aqueles G.I.Joes de 12" ocupava um espaço lascado que a classe média dos EUA não podia mais dispor. Mas com figuras menores, isso poderia ser resolvido.

The Intruder - O primeiro o único
antagonista do Action Team
G.I. Joe nro 1
A Hasbro contatou a Marvel para uma série em quadrinhos, escolheram o Larry Hama (veterano do Vietnã) para escrever, botaram o Herb Trimpe para desenhar. Larry Hama criou um universo para os soldados, lhes deu identidades, nomes, codinomes, um propósito, uma linha de ação, algo que o G.I.Joe nunca teve. O único inimigo que os G.I.Joe de 12" tiveram foram os Aliens Trogloditas conhecidos como Invasores (The Intruders, no original), quando saiu aquela linha "Espacial/Futurista". Mesmo tendo a URSS como inimiga ideológica, nos EUA nunca foram lançados soldados inimigos para combater o G.I. Joe. Agora, para os G.I. Joes de 1:18, haveria um inimigo: a Organização Cobra, que busca dominar o mundo através da violência e do terrorismo. O visual era uma mescla dos soldados nazistas e tinham armamento soviético, já que o AK-47 é o simbolo máximo do terrorismo e do antagonismo tão explicito do bipolarismo mundial da guerra fria.

E, claro, era interessante colocar alguém por trás de todos os atos terroristas do mundo, como se tudo tivesse um propósito mais escuso do que era noticiado. Era um mundo novo onde sequestros de avião e carros-bomba, homens-bomba, mulheres-bomba, cartas-bomba, pias-bomba estavam na televisão todos os dias. 

Em 1982 a Hasbro lança a coleção das figuras 1:18 do G.I.Joe, apoiadas por uma revista em quadrinhos e chamadas televisivas para a nova revista. A promessa e a ideia era que a coleção inteira pudesse ser comprada por menos de US$ 100,00. Tanto que a primeira coleção, com os primeiros personagens, tinha limitação no número de cores para baratear os custos de produção. O personagem mais icônico da série, o ninja commando Snake Eyes, é inteiro preto, sem pintura, para poder dar uma cor a mais para os outros.

O sucesso foi estrondoso. 

Se o G.I. Joe original de 12" era o The America's Moveble Fighting Man o G.I. Joe de 1:18 era o The Real American Hero. As embalagens traziam um filecard com informações do soldado, como nome, origem, especialidades militares. Era o máximo.

As chamadas televisivas para os quadrinhos fizeram tanto sucesso que geraram uma série animada entre 85 e 86 pela Sunbow e mais duas temporadas depois pela DIC. 

Para os EUA, que começavam a deixar de lado o fantasma da derrota política no Vietnã. A invasão da Ilha de Granada em outubro de 1983 consolida isso, por mais que tenha sido meio massacre, meio golpe publicitário das forças armadas dos EUA. 

Foi parte dessa coleção de 1982 que chegou ao Brasil em 1984. Foi o Rock'N Roll o Gladion, o Arma Pesada que eu ganhei em 1984, enquanto eu via um filme velho do Jerry Lewis. 

Com o tempo a coleção foi crescendo lá fora e um pouco aqui, onde os Comandos em Ação eram os Colecionadores de Aventura.

Muitos anos depois eu pude fazer uma segunda análise dos bonecos. Quando você olha para as figuras originais, o porte físico delas é normal, nada de excêntrico ou musculoso. São mais parecidos com os soldados que víamos nos filmes sobre o Vietnã, nada de super-homens. Eram soldados. Como o Hawk diz na primeira edição da revista, eles tinham a missão de alcançar o impossível e fazer isso parecer fácil. 

Sgt Slaughter - Um personagem real que virou G.I. Joe
Mas eram os anos 80. Vimos surgir o Rambo. Vimos Surgir o Schwarzzeneger. Commando. Comando para Matar. Logo, depois de 1986, as figuras começam a ficar "forçudas", tanto os Joes quanto os Cobras. Começam a ser cada vez mais supers dentro dos estereótipos do cinema e da televisão. O telecatch faz seus ídolos e até um deles vira personagem, o Sargento Slaughter. 

Em 1989, o mundo muda. Cai o muro de Berlim. Acaba a guerra fria. Ser soldado e enfrentar o mal deixa de ser interessante novamente. Em 1991, a União Soviética deixa de existir. Os inimigos mudaram.

As vendas começaram a cair. Em parte pelo mundo mudar e em parte porque o videogames começaram ser mais interessantes. E ainda haviam mais opções. Mais desenhos, mais figuras. O negócio não era explorado somente pela Hasbro. 

Novos desafios surgiram para os G.I. Joes e agora havia uma força anti-drogas. Criou-se uma linha para lidar com dinossauros. Surgiu uma Ninja Force. Os últimos estertores foram as coleções espaciais. A linha de soldados, com uniformes militares, começou a ser uma coisa colorida, fantasiosa. A Hasbro havia perdido a mão. Quem quer um soldado com uniforme verde flúor ou amarelo limão? 

O USS Flagg - O Porta-aviões do G.I. Joe
Os veículos até então tinham origem militar real, fosse de projetos, fosse de veículos homologados. Mas depois dessa época, se tornaram "futuristas" e coloridos, sem a preocupação prática com o uso militar e mais com a tendencia a chamar a atenção das crianças pelas cores. Os veículos ficaram toscos. Se em 1985 a Hasbro produziu e vendeu com sucesso o maior playset de brinquedo até então, o USS Flagg, o porta-aviões do G.I. Joe, com quase 2m de comprimento, agora tínhamos veículos vermelhos, amarelos, laranja, verde flúor e por aí afora. A coleção se descaracterizou e não atraia mais seu publico original. 

Em 1994 a Hasbro parou a produção. A Estrela foi pelo mesmo caminho entre 94 e 95. 

Teve uns comemorativos, mais voltados para os colecionadores em 97. 

Aí o mundo mudou novamente.

O 11 de setembro elevou o terrorismo a um novo nível. Os EUA começaram uma nova guerra, contra o terror. E The Real American Hero voltou. E não parou mais de ser produzido. 

Tivemos novas séries de desenhos. Dois longas metragens. Os quadrinhos, hoje, tem 4 linhas de publicação diferentes. 

O New Sculpt da linha 25Th Anniversary
Hoje as figuras são esbeltas, como ditam os novos padrões de beleza e saúde, com moldes diferenciados para os personagens de mair estatura ou musculosos e os personagens "normais". O new sculpt da coleção dos 25 anos de aniversário prevaleceu e se mantém. 

E eu ainda compro de todos eles. 

Que maldição. 

Que eu possa comprar G.I.Joe por mais 50 anos.